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Des-governo

Onde encontro paz
Começa uma guerra em meu peito.
Donde me vem alento, acolhimento
Expulsa-me teu olhar abrupto.
Onde mora meu riso frouxo e desinteressado
Aperta-me a solidão dos desesperados.
Quando penso ser o último gole
Embriago-me nas horas que não passam.
Onde encontro confiança, torno-me destemido
Assombro-me com a presença insistente da sombra que me persegue.
A canção que afaga
Perfura a alma.
O perfume que encanta
Envenena a mente.
As mensagens que aproximam
Não falam a mesma língua.
Quando penso que aprendi algo sobre o amor
O dia já amanheceu
E só restou café pra um.

Fernando Martilis 

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Epifania do Autor

"Voltei a cantar porque senti saudade..." (Chico Buarque)

Acho que nunca parei de escrever, de modo geral.
Escrever me relaxa, me parece com algo terapêutico.
Parei sim, de escrever sobre determinadas percepções
E acerca de algumas almas e certos tipos de corações.
Hora chamo de bloqueio criativo,
Hora de percepção seletiva...
Hora chamo de vida adulta.
O cotidiano, enquanto desenho abstrato do mundo,
Me assombra quando se assemelha a uma salada disso tudo.
Todavia, recentemente, descobri que gosto de Prestígio!
Isso, aquele chocolate com coco!
Detestava Prestígio!
Sobrava ao final da caixa de chocolates.
Mas, não é que me peguei gostando de Prestígio?
De repente, não mais do que do que de repente, talvez as almas transformaram-se,
Os corações descompassaram-se,
As saladas do cotidiano ganharam novos ingredientes,
Resumidamente, as percepções modificaram-se.
Seguirão-se alguns textos novos,
Algumas novas percepções que talvez não sejam tão novas,
principalmente para memórias mais aguçadas.
Que estejam ao agrado de serem partilhadas.
Se ao agrado não estiverem, que partilhe-se o desagrado.
Que seja um chocolate com coco, ou qualquer outro doce,
Pois qualquer doce é melhor do que doce nenhum.
Fernando Martilis

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Ludibriação

Parei de pensar na vida um instante
É que...
O teu cheiro de rosas vermelhas
Ficou impregnado na minha camisa amarela.
Acho que...
O teu abraço acabou deixando um pouco
De você em mim.
Sinto que...
Algo em você ludibria
A minha implacável racionalidade,
Confiando que...
Amanhã, em algum momento pragmático do meu dia,
Uma singela lembrança de você
Vai me fazer esquecer o mundo,
Por um momento,
Mais uma vez.


Fernando Martilis

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Aspirações

Fechei os meus olhos por um minuto,
Escuridão por escuridão,
Optei por aquela na qual podia imaginar um presente diferente.
Decepcionei-me em cogitar futuros
E avaliar o passado.
Hoje pesou sobre a minha cabeça resquícios de aspirações
Que travam meu respirar.
Lembro-me de puxar o ar dos pulmões,
Como quem puxava a vida para fora de si.
Sempre fiz das lembranças uma cidade na rota de visitas costumeiras,
Como toda cidade,
As lembranças possuem seus recantos sufocantes
Que ainda me surpreendem, 
Ao jogarem no meu rosto, com toda violência,
As vulnerabilidades que conseguem abater-me. 
Àquelas que um dia tentei confrontar ingenuamente
Com aspirações e respirações,
Não adiantou, levaram-me tudo
Levaram-me toda a sorte, ou azar de cogitações
Restando apenas esse lugarejo escuro da cidade
Que visito, vez ou outra,
Mas que não sei bem ainda o que farei dele
Daqui por diante.

Fernando Martilis