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Vicissitudes

Vamos, sem certeza mesmo,
Mas vamos.
Vambora que o presente é sabido,
Mas o futuro é uma aposta.
Que apostemos para ganhar, então.
Se não ganharmos,
Que não nos privemos de apostar novamente.
Vamos, passo-a-passo.
Precisamos ir, mais do que tudo.
Já nos despedimos da vizinhança
E da mobília velha.
O cheiro do novo nos espera.
Talvez, onde reside os nossos receios,
O sol brilhe mais forte,
As folhas da árvores sejam mais verdes
E o cantarolar da felicidade
Embale a melodia das nossas vidas.
Só saberemos, se formos.
Portanto, vamos!

Fernando Martilis

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À Joãozinho, com afeto

Às mais saudosas e agradáveis conversas de bar.
À João Carlos da Silva, com nome e sobrenome,
Mais um Silva,
Meu bom amigo, de muitas mesas e muitas vidas.
Joãozinho e eu dividimos algumas cachaças,
Umas fortes, outras fracas.
A mais importante, que eu trouxera da serra após uma breve passagem,
Roubou-me antes do final,
Aproveitando-se de minha fraqueza por cachaças serranas.
Restavam ainda dois dedos de pinga.
Corriqueiramente, sentávamos frente à frente
E mais bebíamos do que conversávamos.
Ao final das noites,
Sem quase nada ter-nos dito,
Havíamos desabafado todas as angústias e as mazelas da vida.
Sim, por vezes, o silêncio de Joãozinho me inquietava.
Perdoem-me, serei mais preciso.
Em muitos momentos o silêncio de Joãozinho
Me deixava puto da vida!
Que escroque!
Entretanto, meu bom amigo carregava consigo
A inocência e a ingenuidade
De quem pouco sabia da vida.
Não se arriscava a falar,
Não por ter medo,
Mas por prezar por sua pouca sabedoria.
Era sabido que não teria muito à contribuir,
Portanto, calava-se à dádiva que pode ser o silêncio.
Joãozinho era raso.
Não tinha o que comemorar,
Não tinha do que se entristecer.
Carregava a vida nas costas à passos lentos.
Em algumas noites mais longas,
Sentia Joãozinho tentar-me sugar a vida
No intuito de ter algum pouco de vida
Pela qual levantar-se no dia seguinte.
No auge de nossas bebedeiras,
Por tantas vezes embriagados,
Eu fitava profundamente os olhos daquele homem.
Podia sentir o seu vazio, a sua finitude.
Não obstante, nas noites mais sombrias
Tendo bebido o que nos cabia
E o que nos sobrava,
Tirando a barba mal feita
E o sinal que tinha no rosto,
Eu podia, perfeitamente, reconhecer-me
No meu bom amigo Joãozinho.

Fernando Martilis



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Uma fração de segundo antes do próximo passo

Por mais belo que seja,
O pôr-do-sol tem seu fim
A finitude do mar, ancora em algum continente
O céu, também, se debruça sobre algum horizonte.
A mais linda das canções termina
O mais emblemático dos poemas emociona e se desfaz
O mais aclamado dos filmes choca, impacta e se dilui
As oportunidades se vão
Os sentimentos definham
As noites, mesmo as mais escuras, num dia culminam.
As promessas se esvaziam
Os sentidos descem escada abaixo
As respostas machucam
O silêncio ainda mais
A dor dói, muito, mas passa
O medo também passa
A angústia, demora um pouco mais, mas se vai
Porque a vida se estreita, se expreme, se exprime
E, enquanto vida for, haverá mais um passo à ser dado. 

Fernando Martilis

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Translúcido

Preciso te dizer que tenho andado por uma estrada vazia,
reconhendo galhos secos
(Simplesmente, não consigo para de pensar em você)
Não sei para onde quero ir,
Também não sei o que fazer com esses malditos galhos
(Você costumava idealizar a minha vida comigo).
Tenho medo de me fazer perguntas
(As suas falas e os nossos momentos ecoam no meu pensamento)
As árvores são belas aqui
(Você iria gostar)
Talvez eu vague por este lugar durante algum tempo,
Caminhando sem destino,
(Sem a sua mão para segurar a minha)
Agindo sem pretensão.
Porque voltar, para mim, não é uma opção.
(Pois sem você eu só posso voltar pra mim,
Mas eu não sou um bom lugar pra voltar).

Fernando Martilis