0

Translúcido

Preciso te dizer que tenho andado por uma estrada vazia,
reconhendo galhos secos
(Simplesmente, não consigo para de pensar em você)
Não sei para onde quero ir,
Também não sei o que fazer com esses malditos galhos
(Você costumava idealizar a minha vida comigo).
Tenho medo de me fazer perguntas
(As suas falas e os nossos momentos ecoam no meu pensamento)
As árvores são belas aqui
(Você iria gostar)
Talvez eu vague por este lugar durante algum tempo,
Caminhando sem destino,
(Sem a sua mão para segurar a minha)
Agindo sem pretensão.
Porque voltar, para mim, não é uma opção.
(Pois sem você eu só posso voltar pra mim,
Mas eu não sou um bom lugar pra voltar).

Fernando Martilis

0

Sobre as excessões

Expor-se é singular,
Revelar o que as vãs filosofias encobrem
Através de verdades líquidas,
É recessivo.
A essência de cada um
Apresenta-se como o bem mais,
Irremediavelmente,
Incompartilhavel.
Nos apaixonamos e nos afetamos,
Confiamos nossos segredos
E partilhamos nossas vidas
Com frações de verdades,
Resquícios de autenticidades
E sobras da legitimidade
De contruções pessoais escusas.
Ao nosso lado vivem os discursos ensaiados,
Os desejos domesticados,
A educação conveniente de quem precisa ser,
Deliberadamente,
O que tem que ser,
Quando quiser ser, apenas.

Fernando Martilis  

0

Sobre O Azul Dos Teus Olhos

E esses olhos que me lembram movimento do mar?
E esse mar que preenche os teus olhos?
Não sei nadar,
Não sei se nada há
Não sei me afogar lentamente,
Graça a Deus!
Convictamente me apresso,
Me atiro,
Mergulho
E afundo
Numa imensidão de vazio disperso.
Hoje serei mar
Amanhã, talvez, amar.

Fernando Martilis

0

Inércia

Não é a escuridão que me assusta
Cresci com ela, dediquei-me ao seu convívio e
Fortifiquei-me à penumbra dos juízes e conselheiros que a rejeitam.
O que me assusta é o que a luz pode iluminar
Parte de enredos inacabados,
Restos de personagens que não protagonizaram as suas próprias histórias.
Sob a escuridão inexistem linhas tortas,
Cores desbotadas
Ou risos perdidos.
Simplesmente,
Não se perde aquilo que nunca se viu,
Tampouco ousou possuir.
Sob a escuridão as percepções são neutras
E as ausências substituíveis
Pelo vazio que não causa estanhamento.
Não desprezo a luz com todas as minhas forças,
E a santidade que inspira em alguns, 
Não me entendam mal,
Tão somente descrevo-me como um irremediável inerte
Repousando sobre o que sempre fora
Mais confortável à alma.

Fernando Martilis