Ricardinho, as flores e o amor!

Aqui começa as narrações de Ricardo ainda Ricardinho, adolescente, contando suas experiências com amor e sentimentos, começando com sua primeira declaração...


Meu pai me disse que me chamo Ricardo porque é nome de Rei, assim eu me tornaria um homem forte, mas não é exatamente forte que me sinto agora, pelo contrário, se encontrasse uma porta aberta pularia para dentro dela e me esconderia lá, como um rato que corre para a sua toca com medo do gato, com medo de se tornar o jantar.No auge dos meus treze anos de idade estou indo agora dizer para a menina que gosto, que estou apaixonado por ela e para aumentar minha tensão, nunca fiz isso na vida!
É minha primeira vez, meu pai também já tinha me falado que primeiras vezes são sempre complicadas.
Meus passos são lentos pelo corredor do colégio, dando a chance de alguém me encontar e me chamar para fazer alguma coisa, acabando com a mínima coragem que eu tenho,estou quase gritando para que alguém faça isso, me tire desse corredor, corredor que me leva até ela, posso até vê-la já no pátio. Linda, cabelos negros, lisos, na altura da cintura, olhos grandes, sorriso grande, bonito, mas que nunca sorriu para mim!
Motivo suficiente para me fazer voltar, desistir. Vou voltar! Todos vão rir, serei a piada da escola, o nerd que se apaixona pela garota mais bonita e leva um fora na frente de todo mundo! Está decidido, eu não vou!
Se ao menos, alguma vez na vida, ela tivesse falado comigo, algo que não fosse sobre a próxima prova ou a matéria de ontem, me daria um pouco de confiança! Mas já estou na metade do caminho, me sentiria um nada quando acordasse amanhã depois de ter sonhado com ela e lembrasse que desisti tão perto, e outra meu nome é Ricardo! Nome de Rei! Isso tem que me servir de alguma coisa! Meu pai dizia que o Rei Ricardo na Inglaterra era conhecido como "Coração de Leão", acho que está na hora de me sentir o gato e não o rato! É isso mesmo, eu vou!
Me lembro como se fosse hoje a primeira vez que vi ela, estava de costas, com seu lindo cabelo solto, como se me chamasse para olhar para ele! Era novata, aí pensei: "Será que ela vai ser da minha sala?" Dito e feito! As aulas de geografia não tinham mais tanta graça, outra coisa me chamava mais atenção! Eu que nunca tinha beijado ninguém e nem me imaginava beijando, não conseguia para de pensar como seria beijar ela!
Pior ainda, me via com a necessidade de dizer o que estou sentindo, que burrice! Para quê falar uma coisa que não terá importância alguma? Quanto mais eu pensava se me declarava ou não mais vontade dava de falar os meus sentimentos para ela, pensava que na pior das hipóteses eu tentaria e levaria um belo fora, mas pelo menos tentaria e colocaria para fora essa ansiedade, essa sensação de estar sufocando! Precisava de ajuda, precisava saber se teria alguma chance, para poder ir mais confiante, falei com uma amiga dela, perguntei se ela gostava de alguém, de quem, do que ela gostava, só consegui uma promessa de segredo e saber que ela gostava de receber cartas!
Aqui estou eu no pátio, a poucos metros dela, com uma flor na mão, uma carta no bolso um tanto amassada com a letra da música Beatriz de Chico Buarque, e tremendo o corpo inteiro! Chegou a hora!
Cheguei perto, toquei em seu ombro, ela olhou para trás.
 - Posso falar com você?
 - Sim, o que foi?
 - Em particular?
 - Ah, pode falar na frente das meninas, elas são minhas amigas não temos segredos, não é meninas?
Em coro:
 - É!
E essa saliva que não desce direito, minhas mãos estão suadas. Mesmo assim tirei a carta do bolso, e entreguei para ela, junto com a flor.
 - Gosto de você! Queria ser teu namorado, queria poder entrar na tua vida como o Chico canta na música!
Pronto falei, foram as palavras mais difíceis que já tinha falado, saíram como um furacão de uma vez só!
Era tanta vergonha que baixei a cabeça para ouvir...
 - Olha uma flor, adoro flores! Que carta linda parece carta de menina, eu pensei que só gays gostassem de Chico Buarque! Está tudo lindo, mas nós vamos ser só amigos tá?!
 - Tá!
Esse "Tá" saiu e eu nem percebi, foi automático! Ali naquele momento começava minha vida amorosa com aquele tá de aceitação, de conformação. Minha primeira declaração me rendeu meu primeiro fora e meu primeiro aprendizado que eu só entenderia anos depois. Nem sempre as cartas e as flores dão certo, elas funcionam mais nos filmes e  nos livros.
Fernando Martilis

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