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Ludibriação

Parei de pensar na vida um instante
É que...
O teu cheiro de rosas vermelhas
Ficou impregnado na minha camisa amarela.
Acho que...
O teu abraço acabou deixando um pouco
De você em mim.
Sinto que...
Algo em você ludibria
A minha implacável racionalidade,
Confiando que...
Amanhã, em algum momento pragmático do meu dia,
Uma singela lembrança de você
Vai me fazer esquecer o mundo,
Por um momento,
Mais uma vez.


Fernando Martilis

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Aspirações

Fechei os meus olhos por um minuto,
Escuridão por escuridão,
Optei por aquela na qual podia imaginar um presente diferente.
Decepcionei-me em cogitar futuros
E avaliar o passado.
Hoje pesou sobre a minha cabeça resquícios de aspirações
Que travam meu respirar.
Lembro-me de puxar o ar dos pulmões,
Como quem puxava a vida para fora de si.
Sempre fiz das lembranças uma cidade na rota de visitas costumeiras,
Como toda cidade,
As lembranças possuem seus recantos sufocantes
Que ainda me surpreendem, 
Ao jogarem no meu rosto, com toda violência,
As vulnerabilidades que conseguem abater-me. 
Àquelas que um dia tentei confrontar ingenuamente
Com aspirações e respirações,
Não adiantou, levaram-me tudo
Levaram-me toda a sorte, ou azar de cogitações
Restando apenas esse lugarejo escuro da cidade
Que visito, vez ou outra,
Mas que não sei bem ainda o que farei dele
Daqui por diante.

Fernando Martilis



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O benefício da dúvida

Se pudesse, ao olhar para trás, relembrar todos os teus passos,
Qual o sentimento que te tomaria?
E qual sentimento te moveria novamente?
À frente?
Atrás?
Qual a sua prioridade hoje?
Fazer ou refazer?
Construir ou destruir?
Elaborar ou repensar?
Olhar por cima dos óculos, às vezes,
Pode significar enxergar melhor.
As lentes embassam e as certezas também.
As decisões tem um costume incoerente de perderem-se no tempo,
As horas passam e as certezas também.
Ao final, quando acreditávamos ter concluído tudo,
A dúvida parece ser um benefício singelo
Desenhada num sinuoso ponto de interrogação
Será?
E se?
E se for?
E se não for?
Para o mal ou para o bem, a dúvida acrescenta.
Um benefício?
Sim?
Não?
Não sabe?
Nem eu.
Fernando Martilis

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Transpassar

Quis alguns minutos de expectativas
Mas a confusão das tuas atitudes me perturbam.
Nada me diz mais da nossa situação
Do que o teu sorriso perdido de uma felicidade que nem você mesmo compreende
Entretanto faz questão de estampar nas mais corriqueiras respostas aos cumprimentos diários
Você e eu temos o dom de sorrir para o azar
Que repousa sob a sorte de nos evitarmos
No nosso caso, o acaso do cotidiano é mera conjectura.
Vimos o quê?
Dois ou três filmes juntos?
Não me recordo de nenhum final contigo,
Nem mesmo os créditos nos preocupamos em dedicar
Aceitamos qualquer responsabilidade que nos for atribuída
Para o bem e para o mal.
Diriam-nos, em alguma breve conversa de botequim,
Que perdemos algumas boas horas das nossas vidas
Escalando as escadas da inquietude
Porque, convenhamos, quando a alma está inquieta
O corpo padece em valorosos e inúmeros amanheceres
Das mais intensas ressacas morais e qualquer outro tipo de ressaca.
Lavar o rosto de manhã cedo em certo dias
Me faz pensar que teria sido melhor mesmo continuar com a cara de ontem.
O ontem contigo eu até que já compreendo bem.

Fernando Martilis


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Futuro do presente

Seremos as letras
Que formam aquelas frases que começam tudo;
- Oi, prazer.
- Como vai você?
- Namora comigo?
Seremos praia, serra e sertão,
Um colchão esticado num chão
Que acolha o nosso anoitecer,
Os nossos sonhos e o pertencer
De carinhos aconchegantes.
Seremos os protagonistas
Do filme das nossas vidas.
Seremos a manifestação dos nossos sorrisos,
Medos,
Lágrimas,
Celebrações.
Seremos nossas identidades
Mesmo quando não pudermos nos reconhecer
Na trivialidade de algum entardecer.
Seremos o sabor adocicado
Do beijo com gosto de chocolate,
Da sobremesa dos nossos desejos,
Daquilo que vem depois do que somos
No milésimo segundo que é agora,
Do agora em que somos nós.

Fernando Martilis

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Receita

Sorrir quando a tristeza ofender,
recolher-se quando a expansão invadir.
Processar tudo.
Descartar somente o que não puder, sequer, ser reutilizável.
Não desistir antes da terceira tentativa.
Sempre ter alternativas, mais de uma.
Conseguir enxergar o fim como uma etapa necessária dos ciclos.
Que o luto demore o tempo de enxugar as lágrimas,
que novas perspectivas acordem conosco ao amanhecer,
que a dor não tome o espaço da esperança
e o medo não te impeça de subir em árvores,
de escalar a vida.
Reforçar o indispensável,
sempre,
o que é constantemente reforçado não se esvazia.
Doar a quem precisar.
Receptividade sempre, como o respirar, não pode faltar.
Movimentar para a frente,
avante e firme.
Quando não for tão firme,
é a hora de parar e avaliar.
A pausa de um suspiro, longo suspiro.
Pensa, refaz os planos e o percurso
E movimento de novo.
Apenas o mínimo é realizado sozinho.
O que de melhor existe na vida
só tem sentido quando é dividido.
A grande questão é quem escolher
Ou por quem fora escolhido
Para dividir a vida,
As vidas.
Fabricar o tempo,
Parece ser o grande desafio da contemporaneidade.
Estabelecer prioridades,
Não se desesperar além de uma breve dor de cabeça
E ser feliz na menor chance que tiver.
Fernando Martilis